Direcção de Castro Pereira

O Sporting Club de Cascais foi o berço onde o «pai» do ténis português, Guilherme Pinto Basto, ensinou este desporto a dar os primeiros passos.

Popularmente conhecido pela denominação de «Club da Parada», o Sporting cascalense atraiu o interesse de muita gente para o Lawn-Tennis, surgindo como pioneiro na organização de campeonatos, juntamente com o Real Velo Clube do Porto.

Com a componente social a dar lentamente lugar à vertente competitiva, as primeiras figuras do ténis português iam aparecendo - além de Guilherme Pinto Basto (vencedor do torneio anual do clube entre 1892 e 1898) e do seu irmão Eduardo, destacavam-se Luís Ricciardi, José Bello, Afonso Vilar, Rodrigo Castro Pereira, as senhoras Vitória Perestrelo, Maria Luísa D'Orey, Ana de Sousa Coutinho, Helena Mauperrin dos Santos e Angélica Plantier, e os ingleses residentes em Portugal: os senhores Dagge, Shore, Frazer e Peel estavam entre os mais assíduos competidores. E já no início do século um dos habituais participantes nos torneios de pares era nada mais nada menos que Sua Majestade EI-Rei D.Carlos, um grande amante da modalidade e amigo pessoal do presidente do clube.

Mas as iniciativas de Guilherme Pinto Basto não paravam. Em 1901 conseguiu organizar um torneio de exibição com a presença de vários jogadores ingleses de nomeada. A este propósito, registe-se esta passagem da edição de Outubro de 1904 da revista «Tiro e Sport», retirada de um perfil do grande desportista: «Ainda em 1901 conseguiu atrair a Cascais o que há de mais selecto entre os jogadores de ténis de Inglaterra. Todos nós tivemos o prazer de admirar o elegante jogo de Madame Blanche Hillyard e de Miss Robb, detentoras do Campeonato do Mundo (nota: referência aos Campeonatos Britânicos, então disputados no complexo de Worple Road, antes de passarem em 1922 para Church Road, Wimbledon; Blanche Hillyard ganhou a prova por cinco vezes 1889, 1894, 1897, 1899 e 1900 - enquanto a Sra. Robb venceu em 1902); Monsieur e Madame Neville Durlarcher, H.S. Mahony, C.H. Caselet e Monsieur George Hillyard deram-nos tardes encantadoras no Sporting Club».

Com o interesse crescente à volta da modalidade, os torneios clubísticos iam aumentando de importância, à medida que as próprias agremiações iam nascendo. Clube Português de LawnTennis, Grupo Lawn-Tennis de Lisboa, Lisboa Cricket Club, Grupo de Matosinhos, Assembleia da Granja, Club da Foz, Grupo Nova Sintra, Oporto Cricket Club, Grupo de S. Roque da Lameira, Carcavelos Cricket Club, Grupo Lawn-Tennis do Prado (Porto) e Grupo Lawn-Tennis da Parede foram alguns dos clubes que se juntaram ao Sporting Club de Cascais e ao Real VeIo Clube do Porto.

Em Setembro de 1904, a revista «Tiro e Sport» retrata de forma pitoresca um dos torneios realizados em Cascais: «O 'tennis' começa a animar-se no Sporting Club de Cascais. No domingo, 18, principiou ali um torneio de 'mixed-doubles' em que tomaram parte: Sua Majestade EI-Rei com o Sr. João Ferreira Pinto Basto; a Sra. D. Anna de Sousa Coutinho (Linhares) com o Sr. José Manuel Figueira; a Sra. D. Maria de Jesus Salema com o Sr. Eduardo Ferreira Pinto Basto; a Sra. D. Maria do Carmo Avillez com o Sr. José Roquette; a Sra. D. Maria Roquette com o Sr. José de Castello Branco Ribeiro da Cunha e o Sr. Francisco Mendonça de Sommer com o Sr. Carlos Figueira. O torneio começou às duas horas debaixo de chuva e foi suspenso só às cinco e meia, ficando com mais probabilidades de vencerem os Srs. Carlos Figueira e Francisco Sommer.» Não deixa de ser curioso que neste torneio de pares-mistos duas das seis duplas fossem inteiramente masculinas...

Com o êxito das pequenas iniciativas vieram os grandes sonhos. E em 1902 foi possível tornar realidade a primeira edição dos Campeonatos Internacionais de Portugal, ainda e sempre no recinto do Sporting Club de Cascais. Dois anos depois, a prestigiada «Tiro e Sport» abria as suas páginas para noticiar a terceira edição da prova: «Era com grande ansiedade que se aguardavam os resultados destes Campeonatos, pois que, para além dos jogadores antigos, cujos créditos já estão firmados, havia alguns jogadores relativamente modernos e cujo valor não era de todos conhecido. Houve partidas interessantíssimas e algumas que despertaram grande entusiasmo. Não entremos na apreciação particular de cada um dos jogadores que mais se distinguiram, porque de forma alguma queremos melindrar o seu amor próprio, mas pelos exames dos mapas (nota: os quadros das provas acompanhavam a reportagem) fácil será apreciar as diversas fases do jogo e a forma por que se houveram os respectivos jogadores, entre os quais se destacam alguns dos modernos a que acima nos referimos.»

Da análise dos quadros fica-se a saber que em singulares-homens a vitória coube ao Sr. R. Frazer, que na final bateu o Dr. José Correia (Castelo Novo), por 6-3, 2-6, 5-7, 6-3, 6-3; em pares-homens os triunfadores foram R.Frazer / S.Moreira; e em pares-mistos venceram Eduardo Pinto Basto e Maria de Jesus Salema. Sua Majestade EI-Rei D. Carlos não foi feliz nesta competição: em pares-homens, ao lado do inglês Shore, quedou-se pela primeira eliminatória, batido pelos britânicos Wallick e Maswell, por 2-6, 6-4, 6-0; nos pares-mistos, fazendo equipa com a já credenciada Angélica Plantier (desta vez EI-Rei teve mesmo de jogar os «mixeddoubles» ao lado de uma senhora...), totalizou apenas 13 jogos num torneio disputado na modalidade de todos contra todos em partidas até 11 jogos, vencendo um encontro por 6-5, perdendo outro pela mesma marca, e sendo derrotado de forma severa nos restantes (11-0, 9-2 e 11-0).

Entre 20 e 23 de Outubro de 1905 o Sporting Club de Cascais promoveu a quarta edição dos Campeonatos Internacionais de Portugal, com quatro competições distintas - a prova de singulares-senhoras faz finalmente a sua entrada no programa. Foi ainda na «Tiro e Sport» que foi publicado o seguinte relato: «Esta é, realmente, a mais desportiva de todas as festas que o Sporting Club organiza anualmente.- A ela concorrem sempre os melhores jogadores portugueses, em competência com reputados tenistas estrangeiros. Este ano a sorte foi adversa aos portugueses, pois que as primeiras classificações couberam aos estrangeiros. Os nossos jogadores, entre os quais se notaram aptidões excepcionais, poderiam ter ficado em melhor lugar na classificação geral se tivessem tido a pachorra de se prepararem convenientemente. Apesar do tempo se ter apresentado inconstante e por vezes mesmo chuvoso, a concorrência de espectadores foi enorme». Miss Ellerton tornou-se a primeira senhora a vencer, enquanto em singulareshomens o triunfo coube a Mr. Lourdain. Os «couples» Morrison / Jourdain e Frazer / Teresa Calheiros ganharam em pares-homens e pares-mistos.

Em 1909 é lançada uma nova competição - o Campeonato de Portugal Inter-Clubes. A primeira edição da prova integrava as variantes de pares-homens e pares-mistos. Na prova de duplas masculinas, realizada na Tapada da Ajuda, a vitória sorriu ao Club Português de Lawn-Tennis, de Santa Marta, que bateu o Lisbon Cricket Club, da Cruz Quebrada, por 7-2. Em pares-mistos o Carcavelos Club derrotou o Lisbon Cricket Club.

No ano seguinte têm lugar os primeiros contactos além-fronteiras, marcados por uma inesperada vitória no Campeonato Internacional realizado em Madrid. O artigo da «Tiro e Sport» de Maio relativo a este torneio é delicioso, iniciando-se com uma breve referência à passagem do Cometa Halley (observado pelo astrónomo inglês Edmond Halley, em 1682, passa junto à Terra de 76 em 76 anos; as duas Ultimas aparições, em 1910 e 1986, não foram particularmente espectaculares, porque aconteceram em circunstâncias desfavoráveis). «O presente mês é daqueles que ficam memoráveis. Se a passagem do celebrado cometa foi um verdadeiro fiasco, o que é certo é que, talvez por vingança, ele desencadeou contra nós a fúria dos elementos. E que fúria! Ventania rija, chuvas torrenciais, trovoadas tremendas e até frio. Felizmente o 'Lawn-Tennis' pouco sofreu, e se não fora o adiamento de dois desafios, por motivo do falecimento desse grande vulto que foi Eduardo VII, o campeonato Inter-Clubes teria continuado com a maior regularidade. E, não só os melhores desafios desta prova anual foram jogados em melhor tempo que os primeiros, como temos o prazer de registar um grande acontecimento no nosso meio tenista. Pela primeira vez, o nosso país se fez representar no campeonato de Madrid com o mais feliz êxito. O 'couple' formado por José Bello (campeão de Portugal - 'men's doubles' em 1906, 1908 e 1909), e por R. W. Frazer (campeão de 'singles' em 1902, 1904 e 1907), obteve o primeiro lugar. Vencedores na capital espanhola, esses jogadores vieram mais uma vez demonstrar que Portugal, em matéria de desporto, pode colocar-se vitoriosamente nos grandes certames do estrangeiro, e muito seria para desejar que o nosso país se fizesse representar nessas reuniões internacionais o maior número de vezes possível, visto que, incontestavelmente, ele possui elementos para obter as mais brilhantes classificações. Se a vitória em Espanha não se pode considerar uma glória puramente nacional, pois que Frazer é inglês, é certo que possuímos jogadores exímios, e para prova bastaria citar o nome do nosso simpático e campeão João da Costa Macedo (Villa Franca), vencedor dos Campeonatos de Portugal de 'singles', 'men's doubles' e 'mixed-doubles' em 1908 e 1909. Que a nossa pátria seja sempre representada, por quem, como José Bello e Frazer, a quem enviamos um caloroso abraço, lhe possa conquistar um lugar de glorioso destaque nas grandes reuniões do mundo desportivo. Nisto se reúne a nossa ambição de bons portugueses. É preciso que se saiba o que valemos, visto que esse valor existe.»

Em Junho, no âmbito do Mês Desportivo, organizado sob a supervisão da Sociedade Promotora de Educação Física, realizou-se um torneio nacional de «Lawn-Tennis», com os atletas a competirem em cinco provas além dos singulares masculinos e femininos, dos pares-homens e dos pares-mistos, joga-se também, pela primeira vez no nosso país, uma prova de pares-senhoras. A influente «Tiro e Sport», no seu número de julho de 1910, acolhe de braços abertos a novidade: «Pela primeira vez no nosso país se organizou um torneio de 'doubles' para senhoras e foi sem dúvida a prova mais interessante e a que mais agradou. É mister que a mulher portuguesa pratique o desporto. É necessário que dentro em pouco vejamos os 'courts' animados por gentis figuras femininas, alegres nos seus fatos claros, fortes, robustas, ágeis, elegantes, graciosas, sem aquele ar preguiçoso, doentio, que é característico da menina da cidade que se estiola em casa a ler francês em romances vulgares e a vencer dificuldades de acrobatismo musical no imprescindível piano. E, ao contemplarmos os rostos rosados, frescos, dessas jogadoras ficaremos convencidos de que o maior passo para a regeneração da raça está na robustez da mulher, das mães do futuro, em cuja descendência se irá reproduzir esse bem inapreciável que é a saúde e compreendendo o desporto serão as primeiras a aconselhá-lo a seus filhos, ao contrário do que hoje sucede, pois que raras são as que não classificam a ginástica obrigatória dos liceus como um suplício inútil.»

O «Lawn-Tennis» parecia definitivamente lançado como modalidade desportiva. Mas nesse mesmo ano sofreria um forte revés a 5 de Outubro é implantada a Republica.

A aristocracia portuguesa tinha sido até aí interessada espectadora e entusiasmada participante nos torneios de ténis realizados nos clubes de Lisboa e Porto. Com a República, grande parte dos nobres seguem o caminho de D. Manuel II, exilando-se no estrangeiro.

Entre os que restaram continuaram a disputar-se os campeonatos, mas em 1914, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, novo golpe se abate sobre o jovem desporto. Obrigados a alistar-se, portugueses e ingleses residentes em Portugal vão combater para as terras estrangeiras. Registe-se até o caso de Rodrigo Castro Pereira - que em 1934 sucederia a Guilherme Pinto Basto à frente dos destinos da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis , que no exílio se procurou alistar no exército português. Como o seu pedido foi recusado, acabou por entrar para o exército dos Estados Unidos da América, chegando ao posto de tenente.

Terminada a guerra, recontaram-se as «espingardas» do ténis nacional, que então viu surgir novos valores, como José de Verda, António Casanovas, Joaquim Miguel de Serra e Moura, Frederico d’Orey, José Roquete, Vasco Horta e Costa, Frederico Ribeiro, Domingos d’Avillez e Eduardo Ricciardi.

Ainda e sempre na primeira linha dos dinamizadores do ténis em Portugal, Guilherme Pinto Basto apela aos seus contactos internacionais e consegue trazer até ao nosso país as grandes figuras do ténis dos «Loucos Anos Vinte». Noel Turnbull, Manuel Alonso, Jean Borotra e a «divina» Suzanne Lenglen são alguns dos grandes campeões que animaram nessa altura os Campeonatos Internacionais de Portugal organizados no clube da Parada. A final feminina de 1923 ficou memorável, com Suzanne Lenglen a bater Angélica Plantier, impedindo a jogadora portuguesa de alcançar nesse ano o seu quarto título. Mas nos nove anos seguintes Angélica apenas deixou escapar o título em 1930...

A Meio da década deu-se outro passo de gigante no desenvolvimento do ténis em Portugal. Com a criação, a 16 de Março de 1925, da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, estava criada a estrutura aglutinadora que permitiria uma mais correcta expansão da modalidade, bem assim como a concretização de um sonho - a participação de Portugal na maior competição por equipas do calendário masculino: a Taça Davis.

Criada pelo coronel americano Dwight Fulley Davis em 1900, a prova disputava-se inicialmente apenas entre os E.U.A. e a Grã-Bretanha e punha em luta um trofeu de prata maciça e duas bases de madeira, com o peso total de 198 quilos. Em 1904 a prova foi aberta também à Bélgica e à França e a partir daí alargou-se a inúmeros países.

Sem terem uma federação nacional, os tenistas nacionais viam-se impedidos de competir na já então famosa prova. Por isso, em 1924, nas instalações do

Automóvel Clube de Portugal, os mais dinâmicos tenistas portugueses reuniram-se e lançaram as bases da Federação Portuguesa de Lawn-Tennis, que entrou em funções no ano seguinte.

Apesar de até 1962 a participação nacional na prova ter sido bastante irregular - durante este período a representação nacional apenas competiu por oito vezes, somando outras tantas derrotas -, a inscrição na prova foi acolhida com grande entusiasmo.

José de Verda e António Casanovas, em singulares, e a dupla António Casanovas/Frederico Vasconcelos foram os escolhidos para defender as cores lusas na primeira eliminatória, disputada em Maio de 1925, em Lisboa, face à Itália. O resultado foi de 4-1, favorável aos transalpinos, com António Casanovas a conseguir o único ponto português, face a Serventi.

Até 1928 Portugal participou todos os anos na Taça Davis e em todas as ocasiões se quedou pela eliminatória inicial - em 1926, fomos a Londres perder com a equipa da África do Sul, por 4-1; no ano seguinte perdemos em Lisboa com a equipa alemã, por 5-0; e em 1928, novamente em Lisboa, fomos batidos pela Nova Zelândia, por 4-1.

Os maus resultados sucessivos desmotivaram dirigentes e jogadores, de tal forma que Portugal apenas voltou a participar na Taça Davis em 1948.

Mais duradouros foram os Campeonatos Nacionais, que se começaram a realizar igualmente em 1925 e que desde então têm vindo a disputar-se ininterruptamente.

Frederico D'Orey, Angélica Plantier, António Casanovas/Frederico Vasconcelos e Angélica Plantier/Frederico Vasconcelos foram os primeiros a verem os seus nomes no palmarés dos Campeonatos Nacionais.

José de Verda, Rodrigo Castro Pereira, António Casanovas, José Roquette e Eduardo Ricciardi foram os grandes dominadores da prova durante os primeiros anos, com Roquette a vencer por 14 vezes o Campeonato - a primeira em 1934 e a Ultima em 1953!

No início dos anos trinta a modalidade manteve-se mais ou menos estagnada, havendo mesmo um período de declínio, a partir de 1934. Conforme escreveu o historiador de ténis Fonseca Vaz no seu livro «O Ténis em Portugal», editado em 1979, é incontestável que nos primeiros tempos a Federação teve uma grande influência na evolução e expansão do ténis português, proporcionando, além dos Campeonatos Nacionais, os Campeonatos Internacionais e a nossa representação na Taça Davis.

Porém, estas provas estavam muito longe de serem suficientes para provocarem a melhoria do nosso nível tenístico. E tanto assim é, que a partir de 1934 se começa a verificar um acentuado declínio e desinteresse pelo ténis, sem que se tivessem tomado medidas imediatas para evitar o mal». E nem a criação por parte da Federação Portuguesa de Ténis, em 1935, da Comissão de Iniciativa e Propaganda do Ténis (C.I.P.T), conseguiu evitar que a modalidade entrasse na curva descendente.

Sem uma coordenação a nível nacional do ensino da modalidade, eram figuras como o prof. Vasco da Fonseca Galvão que ainda conseguiam evitar o marasmo, levando alguns jovens a praticar o ténis.

Nascido em 14 de Fevereiro de 1895, Vasco Galvão destacou-se como técnico, dirigente e jornalista. Tendo chegado a fazer parte em 1926 do elenco federativo de Guilherme Pinto Basto como vogal, foi como treinador que mais se evidenciou.

Desportista ecléctico, começou por dar nas vistas como futebolista, envergando a camisola do Club Internacional de Foot-Ball. Mas a sua vida modificou-se definitivamente quando em 1928 encetou uma viagem a Inglaterra para assistir a um curso de ténis no All England Lawn Tennis and Croquet Club de Wimbledon, a «catedral» da modalidade. Aos 33 anos, Vasco Galvão decidiu passar a viver exclusivamente da modalidade.

Enquanto profissional de ténis, a sua participação nos Campeonatos Nacionais estava proibida. Para poder competir, ainda regressou temporariamente ao estatuto de amador, mas a vontade de ensinar os jovens jogadores era mais forte e o profissionalismo voltou a ser assumido a cem por cento. Vasco Galvão criou a primeira escola de ténis em Portugal - a Escola de Ténis V.P.G., assim denominada em memória do seu filho Vasco Pistacchini Galvão, de entre os seus descendentes o mais dotado para a modalidade, mas que teve morte prematura. Pela V P.G. passaram muitos dos jogadores que se destacaram nas décadas de 50 e 60, como David Cohen, Peggy Brixhe e António .:.

Azevedo Gomes, que Vasco Galvao ainda viu serem campeões, antes da sua morte em 21 de Setembro de 1966.Na sua actividade como jornalista colaborou em diversas publicações, tendo lançado em 13 de Julho de 1930 a revista «Tennis», que se publicou de forma muito irregular até Abril de 1937, tendo inclusive mudado de nome por duas vezes (primeiro, para «Desportos Elegantes»; depois, para «Tennis & Golf») e focado outras modalidades - entre as quais o futebol -, no sentido de manter um lote fiel de leitores. Deste esforço inglório ficaram para a história as crónicas dos torneios da altura e os brilhantes ensaios sobre técnica da autoria do «Director, Proprietário e Editor» Vasco Galvão.

Para que o interesse no ténis não esmorecesse completamente, muito contribuíram as presenças no nosso país das grandes estrelas do ténis mundial. Para participarem nos Campeonatos Internacionais de Portugal, estiveram entre nós nomes famosos, como Marcel Bernard (vencedor em 1932), Henri Cochet, Yvon Petra (que ganhou em 1945), e mais tarde Manuel Santana (triplo vencedor, em 1961, 1965 e 1969), Manuel Orantes, François Jauffret (triunfador em 1968 e 1970), Nicola Pietrangeli e Edison Mandarino (que ganhou em 1966 e na última edição da prova, em 1973).

Entretanto, os vários elencos federativos apostaram também na contratação de diversas estrelas do mundo do ténis profissional, que devido ao seu estatuto não podiam competir nos torneios oficiais, reservados até 1968 exclusivamente a amadores. Por exemplo, em 1949, a Federação Portuguesa de Ténis permitiu aos adeptos portugueses seguirem de perto as exibições de Jack Kramer, Bobby Riggs e Pancho Segura, numa iniciativa que custou aos cofres federativos, segundo dados de Fonseca Vaz no livro «O Ténis em Portugal», um total de 115.273$90, obtendo a F.P.T. uma receita de 114.780$00 e tendo de suportar o prejuízo irrisório de 493$90.

Em 1945, foi inaugurado o complexo do Estádio Nacional. Estreado com pompa e circunstância no dia l0 de Junho, este conjunto de infra-estruturas desportivas respondia ao desejo da Federação Portuguesa de Futebol de possuir um campo para acolher as selecções estrangeiras. Mas tornava igualmente possível uma maior divulgação da prática do ténis, pois do complexo faziam também parte nove «courts» de ténis.

Na inauguração estiveram presentes diversos craques estrangeiros, como Petra, Romanoni, Pellizza, Massip e Szawost.

Todavia, a oportunidade de massificação da prática do ténis - pelo menos na zona da capital - foi esquecida durante mais de vinte anos, tendo de se aguardar por 1966 para que fosse criada uma escola de ensino do ténis no Jamor, por iniciativa do então Ministro da Educação, Galvão Teles.

O interesse nos Campeonatos Nacionais apenas voltou a crescer no início dos anos sessenta, quando o nível qualitativo dos praticantes subiu e o ténis português ficou marcado pela rivalidade que permitiu a Alfredo Vaz Pinto e João Lagos repartirem os títulos disputados entre 1963 e 1972. Vaz Pinto venceu em 1963-64 e depois entre 1968 e 1972. Lagos ganhou três Campeonatos consecutivos, entre 1965 e 1967.

No sector feminino, chegava ao fim o domínio de Peggy Brixhe, oito vezes campeã nacional - a primeira em 1945, a derradeira em 1966 -, para se iniciar o de Leonor Santos (depois Peralta). De 1967 a 1982, venceu a prova por 13 vezes, deixando escapar somente os títulos de 1977, 1978 e 1981, sempre para Deborah Fiuza.

Inicia-se então uma fase de expansão do desporto das raquetas, que se acentuaria a partir de 1976, com a actuação de Cordeiro dos Santos à frente da Direcção da F.P.T.. Competitivamente, o início da década de setenta é marcado pela monotonia, tal a superioridade dos melhores executantes o portuense José Vilela ganha cinco campeonatos consecutivos em singulares, de 1973 a 1977, enquanto a dupla José Vilela/João Lagos arrecada sete títulos de 1970 a 1978.

A revolução de Abril vem encontrar o ténis português ainda numa fase muito precária. Todavia, os adeptos portugueses tiveram conhecimento nesse ano de uma das melhores notícias para a modalidade.

Henrique Mantero Belard, estrangeiro radicado em Portugal, faleceu e deixou parte da sua fortuna, obtida nos Estados Unidos da América, a diversas instituições nacionais.Setenta por cento da sua herança excluídos os montantes devidos aos herdeiros - revertia para a Santa Casa da Misericórdia; vinte por cento para a Cruz Vermelha Portuguesa; e os restantes dez por cento para a Federação Portuguesa de Ténis.

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