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Entrevista a César Coutinho


“Não há topo sem base”

Diretor do Departamento de Formação da Federação Portuguesa de Ténis desde o início de 2018, César Coutinho, de 41 anos, licenciado em Ciências do Desporto e mestre em Treino Desportivo pela Faculdade de Motricidade Humana, aborda ao “Notícias do Ténis” temas muito interessantes ligados ao desenvolvimento e ao ensino do ténis em Portugal. Isto sem deixar, no entanto, de ter um olhar atento às tendências futuras da modalidade.

NT - Que balanço faz do trabalho que tem feito na FPT?

CC - Positivo, diferente e exigente. Este primeiro ano foi um ano de preparação de todas as melhorias que pretendemos introduzir dentro do departamento, sendo que o próximo será o ano de implementação dos principais aspetos. Estamos a estabelecer ciclos bianuais, pelo que alguns dos aspetos iremos avançar em 2019, e outros em 2020. No entanto, houve já neste ano de 2018 avanços significativos no projeto que queremos implementar. Foi um ano muito positivo que culmina num simpósio que espelha a nossa filosofia, e penso que com a concordância generalizada da maioria dos treinadores do país sobre as ideias apresentadas.

NT - Como achou que estava o sector de formação antes de assumir o cargo?

CC- Em tudo o que faço, prefiro sempre falar do presente e do futuro em vez de olhar para o passado. Esta situação não é diferente. Prefiro olhar para a frente. Pessoas diferentes têm diferentes visões de desenvolvimento, e a visão que tenho neste momento é bastante ambiciosa em todos os aspetos. Empenhados na excelência é o nosso mote… sempre!

NT - O simpósio em Vilamoura correu conforme o previsto?

CC - O Simpósio superou as expectativas, tanto em número e qualidade dos participantes, como na qualidade das preleções. Naturalmente fizemos tudo para que isso acontecesse e, para mostrar a nossa nova “cara” e as ideias principais que iremos implementar; de um modo geral parece-me que foram muito bem aceites pela qualidade e quantidade de feedbacks que tivemos ao longo do evento. Há naturalmente sempre aspetos a melhorar, e iremos fazê-lo no próximo evento em 2020.

NT – Porquê o Jofre Porta para cabeça de cartaz do Simpósio?

CC - O Jofre é um caso real de relação treinador-atleta da base ao topo – tema do simpósio – podendo passar a sua experiência e conhecimento sobre as diversas fases de desenvolvimento de um jogador. Esta visão global era algo que procurava num cabeça de cartaz deste simpósio, de modo a poder integrar vários aspetos das restantes apresentações. É também um amigo meu de longa data, e um dos treinadores que teve bastante importância no meu “crescimento”, abrindo-me os olhos para vários aspetos relevantes no desenvolvimento de um jogador. A sua visão do Ténis e do treino é “diferente” da maioria dos treinadores por esse mundo fora, e como é um excelente comunicador, consegue passar a mesma brilhantemente. É um apaixonado pela formação e pela partilha de conhecimento, pelo que é totalmente aberto nas suas apresentações. Foi claramente uma aposta ganha.

NT - O que achou de mais interessante na palestra de Jofre Porta?

CC - Houve inúmeros pontos interessantes nas suas apresentações. Um deles está relacionado com o facto de ele considerar que viajar no circuito profissional é sobrevalorizado…ele considera que trabalhar nas bases é muito mais estimulante e gratificante. Isto está diretamente relacionado com o facto de que antes de sermos treinadores somos educadores, o que penso ser uma mensagem fundamental. Sobre o desenvolvimento de jogadores abordou vários temas, tais como o da variabilidade de treino, defendendo que temos de estimular um “caos” controlado de modo a chegar ao que queremos. Estimular o jogador constantemente com desafios de diversos tipos, considerando que, por vezes, ficamos muito tempo na zona de conforto do atleta. Tem de haver variabilidade de treino e pressão positiva constante de modo a que o atleta possa atingir o seu máximo potencial.

NT - Que projetos tem para 2019 no âmbito da esfera federativa?

CC - Na nova ideia de organização do departamento, temos vários projetos. Em janeiro irá haver o lançamento de um novo website do departamento de formação com toda a informação relevante sobre as nossas atividades, bem como com páginas de informação sobre aspetos técnicos do Ténis. Por ocasião do Millennium Estoril Open iremos lançar um primeiro livro online do departamento sobre os princípios determinantes para o sucesso. O mesmo servirá de base a grande parte do projeto que queremos desenvolver. Todos os cursos de treinadores irão mudar de estrutura, passando a ter uma componente online antes do mesmo, e dedicando o tempo presencial a um maior enfoque prático de aplicação dos conteúdos. Diferentes horários para os mesmos, mais adaptados aos horários dos treinadores. Workshops novos, temáticos e direcionados. Desenvolvimento de exercícios para proposta de um modelo de ensino… da base ao topo, tal como o tema do Simpósio deste ano.

NT - O que mudou no ténis em geral nos últimos anos?

CC - Na minha opinião o ténis está cada vez mais físico, e os jogadores estão cada vez mais completos e cada vez com menos lacunas nas diversas áreas. Isso deve-se, em grande parte, a uma difusão de informação a nível mundial, consequência da formação de treinadores, elevando assim a fasquia para conseguir ter sucesso nesta modalidade. Este aspeto faz com que os jogadores que estão no topo consigam manter-se mais tempo no mesmo, conseguindo de certa forma retardar os efeitos do envelhecimento, e, tendo mais experiência do que os outros, têm carreiras mais longas.

NT- Ainda vai haver espaço para jogadores criativos e para superdotados?

CC - Acho que haverá sempre, dentro daqueles que colocarem bastante trabalho de qualidade em cima das suas qualidades. A criatividade marca sempre a diferença, mas é preciso ter as armas para se aguentarem no ritmo de jogo que é imposto pelos restantes jogadores e depois o seu “talento” e criatividade irá criar desequilíbrios, desde que aliada a outras qualidades (que são igualmente “talentos”) como a capacidade trabalho, espírito de sacrifício, e claro, capacidades atléticas, entre outras.

NT - Como avalia o sistema português de ensino?

CC - A qualidade do ensino em Portugal - de um modo geral - é bastante boa, mas os horários escolares, por vezes, tornam difícil a compatibilização com um sistema de treino mais exigente. No entanto, é necessário haver capacidade de adaptação. Pensamos por vezes que é sempre melhor em outros locais, mas isso não é verdade. Na Bélgica, por exemplo, os horários escolares de um modo geral também não ajudam, com ainda menos flexibilidade das escolas para situações extra, a não ser que haja o estatuto de alto rendimento que tal como em Portugal cria algumas facilidades. As épocas de exames na Bélgica a partir dos 11 anos de idade são muito duras sendo que a maioria dos atletas têm de quase parar de treinar durante 1,5 semanas, 3 vezes por ano. Penso que há sempre problemas com os sistemas de ensino na maioria dos países, a solução está em arranjar formas de os contornar e criar as condições ideais do ponto de vista desportivo e humano para que os atletas se desenvolvam ao seu máximo potencial.

NT - Em Portugal liga-se muito ou pouco à formação?

CC - Quando são apresentadas ações de qualidade normalmente há adesão… penso que é preciso passar mais conhecimento, ferramentas e orientar melhor o processo de desenvolvimento, tornando a informação acessível a todos. Esse é um dos nossos principais objetivos. Muitas vezes há muita vontade, mas sem conhecimento suficiente e experiência no processo, e falha de divulgação sobre o caminho adequado que deve ser desenvolvido. Acho que isto passa muito por todos os projetos que iremos avançar de divulgação do conhecimento, quer seja através dos cursos de treinadores, quer seja das ações de formação, plataforma online... Este ano temos tido muito boa adesão de todos os treinadores aos novos workshops realizados, e bons feedbacks após as respetivas ações, tal como no simpósio, pelo que penso que estamos no caminho correto. É fundamental que a informação chegue de forma aplicativa aos clubes, de modo a podermos potenciar o desenvolvimento dos jogadores mais jovens.

NT - O nível global do ténis feminino em Portugal é inferior ao masculino. Está preocupado com isso? Que ideias tem para alterar?

CC - Sim, de facto há muito menos raparigas a jogar do que rapazes. Isso é uma realidade generalizada nos países ocidentais que curiosamente é inversa nos países do leste europeu. Alguns destes aspetos são culturais, no entanto penso que se todos os treinadores estiverem informados sobre as diferenças entre treinar raparigas e rapazes, e houver metodologias adequadas e difundidas, podemos melhorar muito aqui também. É muito diferente treinar um rapaz ou uma rapariga no que diz respeito acima de tudo às estratégias de ensino e comunicação.

NT - Fale-nos da sua experiência na Bélgica..

CC - Tem sido muito positiva. Arranquei com um projeto que tem como base o desenvolvimento de atletas de competição e alta-competição desde a base. O projeto começou há cerca de 2,5 anos e já está a colher muitos frutos. Muito trabalho e sacrifício para arrancar, como em qualquer projeto de base. Partiu de uma parceria com um clube bem estabelecido na região da Flandres (perto de Bruges), com o objetivo de desenvolver o mesmo para níveis mais altos de performance. Em 2,5 anos, temos 6 atletas desenvolvidos no clube que têm o estatuto de alto rendimento nas respetivas idades, e estamos completamente lotados. Para além da competição, o clube todo também cresceu com cerca de 200 novos sócios, e desde o arranque do projeto, tem vindo a bater o recorde todos os anos em todos os números. O projeto corre muito bem, mas claro que em termos de enquadramento pessoal não é o mesmo que estar no nosso belo Portugal…

NT - Como avalia o facto de a Espanha, um país com enorme tradição, dinheiro, competição, poder vir a passar a breve trecho por uma grande crise...Nadal e mais Nadal e só Nadal....

CC - Penso que está totalmente relacionado com aquilo que estamos neste momento a desenvolver em Portugal…e com o tema do próprio simpósio e do projeto. A tendência da maioria das academias e centros de treino é de se focar no topo…, mas não há topo sem base. Esse foi o principal conceito deste simpósio. Para termos mais atletas no topo da modalidade temos de nos focar no desenvolvimento dos mesmos desde início, de modo a que possamos ter os melhores jogadores possíveis aos 14/15 anos com possibilidade de apostar no profissionalismo, se essa for a vontade deles. Grande parte das bases do jogador são dadas entre os 5 e os 14 anos de idade, sendo que quando negligenciamos esse trabalho, dificilmente iremos ter resultados mais à frente. A questão é que esse é um trabalho mais difícil e que, muitas vezes, os “melhores” treinadores não estão muito interessados em o fazer, em qualquer país e do qual Espanha não é exceção. Como me dizia um treinador português que também teve bastante influência no meu desenvolvimento – Luís Miguel Nascimento – “por vezes, ainda não colocámos o carro na estrada e já vai sem uma roda”. O nosso papel é garantir que temos o maior número de carros nas devidas condições para “colocar na estrada”, e aí considero que o nosso papel na formação é não só importante, mas vital para o desenvolvimento da modalidade. Do meu ponto de vista, em Espanha é necessário que olhem também um pouco mais para a base, visto que o foco da maioria das academias é a partir dos 14/15 anos de idade, altura em que se houver lacunas de base, dificilmente serão alteradas com sucesso, visando o alto rendimento desportivo.

 

Norberto Santos, jornalista

 

Entrevista a Rui Machado


“A partilha coletiva de sucesso é na Davis”

Oficializado como capitão da Taça Davis no final de outubro, Rui Machado, que sucede a Nuno Marques, fala dos objetivos para 2019 e aborda muitos temas interessantes ao longo de uma entrevista para “Notícias do Ténis”.

NT – O que significa para si a Taça Davis?

RM – Em primeiro lugar, a Taça Davis é a competição máxima por equipas a nível mundial. É uma prova cheia de tradição com mais de cem anos e a grande responsabilidade que temos é representar a Seleção Nacional ao mais alto nível. Somos um país carregado de história e o próprio hino nacional transmite-nos essa grandeza histórica. Quando se é muito novo por vezes não temos a noção, mas mais tarde e em pouco tempo vemos que tudo está ligado: a nossa identidade, o desejo de afirmação e o querer ganhar.

NT – É um sentimento muito forte como jogador e capitão?

RM – Apenas posso falar na situação que vivi por dentro como jogador. Queremos ganhar, mas também queremos partilhar o sucesso com os colegas, equipa técnica, federação e adeptos do ténis. Isto envolve muita gente. Diria que a maior partilha de sucesso acontece na Taça Davis. É, na realidade, um sentimento muito forte.

NT – Como foi a primeira chamada em 2003? Surpreendido?

RM – De certa forma já estava à espera, pois estava a fazer alguns bons resultados. Digamos que foi uma convocatória natural. Fui o nº 2 da Seleção Nacional, a seguir ao Hélder Lopes e a estreia aconteceu fora frente à África do Sul.

NT – Sentiram que essa era a última eliminatória com José Vilela ao leme da equipa?

RM – Nessa altura vivia e treinava em Espanha e não me lembro que era uma Comissão de Gestão que estava à frente da direção da federação. Mas o José Vilela não escondeu e assumiu na África do Sul que era a última vez que dirigia a equipa. Isso esteve sempre presente.

NT – Também pressentiu que a saída do Nuno Marques estava iminente após a recente eliminatória com a África do Sul?

RM – Essa era uma situação interna e já tinha ouvido falar nisso. A situação profissional do Nuno Marques não possibilitou a sua continuidade, mas esperava que tudo isso pudesse ter sido repensado a contento.

NT – O facto de orientar Pedro Sousa no CAR Jamor Santa Casa não foi um problema?

RM – Nada disso. O Pedro Sousa integra a estrutura da federação desde há algum tempo e esse assunto nem sequer chegou a estar em cima da mesa.

NT – Geralmente quem inicia uma função pretende introduzir novidades. Quais vão ser essas novidades em termos de Taça Davis?

RM – Quem me conhece sabe que não tomo decisões por impulso e prefiro fazer uma análise cuidada de toda a situação. Fiz isso quando entrei para o CAR. Procedemos a algumas alterações, nomeadamente a mudança de horários, grau de exigência, e mantivemos, por outro lado, muita coisa. O que pretendo para a Taça Davis é que os atletas se sintam bem e tenham um bom ambiente.

NT – Isso traduz-se em quê, concretamente?

RM – Que o ambiente seja saudável, tentar personalizar a programação e fazê-los sentir confortáveis. Tenho de saber ouvir os jogadores sobre as suas rotinas de treinos e nos dias de jogos.

NT – Na Taça Davis é mais complicado jogar em casa ou fora?

RM – Claramente que é mais difícil jogar fora de casa. Em Portugal temos a situação mais controlada. Ficamos no hotel que queremos, temos a nossa comida preferida, facilidade de transportes e se surge algum problema tudo se resolve num instante. A federação tem uma equipa profissional muito experiente nesta área.

NT – Como jogador já passou por situações menos agradáveis na Taça Davis em eliminatórias fora?

RM – Por exemplo, na Moldávia, a equipa de juízes-de-linha não era minimamente isenta. Não só pelas decisões, mas pelo que se viu. Saíam do campo e iam para a bancada juntar-se aos adeptos sem qualquer problema e vice-versa. É claro que não se podia pedir isenção. Numa outra eliminatória em Israel também tivemos problemas com a comida, que era congelada previamente.

NT – Olhando para a frente, qual é o futuro desta Seleção Nacional?

RM – Não tenho qualquer dúvida que vamos ter esta equipa ao mais elevado nível por mais cinco anos. Agora consegue-se jogar até mais tarde e todos eles são excelentes profissionais. Por outro lado, temos um grupo de jovens jogadores bem classificados e a história diz-nos que às vezes temos boas surpresas.

NT – Qual é a imagem que o ténis português tem no estrangeiro?

RM – Houve uma mudança muito grande. Felizmente, o nosso ténis tem uma boa imagem em várias áreas. Somos bem organizados, temos uma boa capacidade de resposta aos projetos que nos são lançados e apresentamos um trabalho sustentado. Os nossos níveis de organização são muito bons. A imagem do Millennium Estoril Open é francamente positiva e ao nível do desenvolvimento e formação temos projetos de referência que são muito reconhecidos internacionalmente.

NT – Desde que está à frente do CAR Jamor Jogos Santa Casa nota-se uma total sintonia com a direção da federação. É uma empatia ou prova de confiança?

RM – Não é apenas uma empatia pessoal. Defendo que temos de partilhar os mesmos valores de ambição e ter a mesma capacidade de trabalho e objetivos, criando condições para o sucesso. Confio bastante na minha equipa técnica e tenho sempre presente que cabe à direção da federação validar as minhas propostas. Quando isso acontece, o trabalho flui naturalmente.

 

QUEM É

Rui Machado

Nascimento: 10 abril de 1984

Naturalidade: Faro

Altura e Peso: 1,78 m e 70 kg

Melhor ranking ATP: 59º (2011)

Vencedor de 8 torneios Challenger e 18 torneios ITF

Campeão de Portugal em 2005, 2008, 2013 e 2014

 

 

Norberto Santos, jornalista

 

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